Era um dia triste, ventava. Um dia melancólico e sem vida. Um coração estava na UTI a exatamente 1 ano e 2 meses. Um adeus tirou-lhe a vontade de viver. Desde então vagava sem motivação, sem alegria, sem esperança. Pulava de mão em mão na ilusão de que alguém o pudesse fazer bater novamente. Inocentemente acreditava que haveria alguém que o pudesse tirar daquele lugar e lhe desse um sopro de vida. O amor? Quem sabe seria capaz de fazê-lo reviver. Mas será que ele de fato queria? Será que não preferia ficar naquele estado de inércia? Mas o que de fato ele queria? O que ele esperava? O que o traria de volta a vida?
Nesse período ele chorava, agonizava, vivia de lembranças que não mais voltariam e que só existiam nas suas recordações, pois na vida real há muito haviam desaparecido.
No fundo, havia sim um resquício de esperança de que o velho amor lhe tirasse do sono profundo, como no conta da Bela Adormecida, em que a bela moça é acordada pelo seu príncipe e vivem felizes para sempre. Só que o dilacerado coração não teve a mesma sorte.
O seu salvador (se é assim que o pudemos chamá-lo) várias vezes lhe deu uma esperança, atiçava-lhe dizendo que podia retornar e tirá-lo daquele sofrimento, mas depois ia embora e deixava o pobre coração ainda mais triste, a um passo de parar os batimentos e morrer de vez.
Mas o coração, por mais fragilizado que estivesse tentava de todas as formas reagir. Buscava um novo amor, (mais que droga!) ninguém conseguia substituir o lugar do seu antigo dono. Logo, o pobre coração percebia que estava se enganando e voltava de novo para o seu estado de coma. Repetidas vezes isso aconteceu.
Um belo dia o seu velho dono reapareceu por saber que ele poderia estar adotando um novo dono e veio reivindicar o seu território: Epa! Esse coração aqui é meu, não pertence a mais ninguém. O coração sem pensar duas vezes se atirou e reviu a possibilidade de tudo voltar a ser como antes. Entregou-se por completo. Logo após a loucura da entrega e de que tudo pudesse voltar a ser como antes, eis que o seu “dono” diz que não é mais seu dono, pois já habita em um novo coração.
O pobre coração desnorteado quase tem uma parada cardíaca. Por pouco não morre de vez e volta para a UTI. Ali ele fica por um bom tempo, sem nem mesmo reagir, prefere o isolamento e nem pensa em voltar mais para a vida.
Continuando na sua tristeza, vai levando até que o destino promove um encontro, e posso-lhes assegurar não foi a melhor circunstância para tal. O enterro do pai do seu velho dono. O coração pensou em não ir, pois sabia que haveria encontros que não gostaria de ter, ou seja, do seu velho dono e do novo coração que ele escolheu para morar. Não ia ser fácil tal encontro, mas teve que ir, pois em respeito ao pai do seu dono e até pelo carinho que tinha para com a família ele foi, meio que cambaleando. Chegando lá eis que vê a pior coisa de toda sua história, o novo coração não só já havia tomado de conta do seu dono como estava prestes a lhe dar crias, ou melhor, filhos e então logo estaria formada uma família. E foi naquele momento em que o velho coração não agüentou e foi sepultado junto com o pai de seu dono.
A única coisa que ficou desse pobre coração foi uma história triste de um amor que não valeu sua vida.

Difícil teorizar a dor alheia... Por mais que se use belas palavras sempre soará um pouco indiferente...
ResponderExcluirMas ninguem pode negar que na dor descobrimos muito da gente... e na perda tb (o que há de se fazer se somos apenas humanos...?)
Apenas não deixe que momentos como esse tirem sua sensibilidade e sua crença em porvir melhores, ainda que distantes da nossa limitada compreensão!
Adorei o texto!
Bjo!!
Um poema que não há nem palavras para descrevê-lo,pois é a estória mais linda que já li...
ResponderExcluirA poeta está de parabéns...